Parada LGBTQIA+ virtual entre acertos e derrapadas, entre o novo e o esquecimento de quem realmente fez a história do evento

A tarde de domingo, 14/06/2020, era para ser colorida na Av Paulista com milhões de pessoas celebrando o Orgulho LGBTQIA+, mas com a maldita Covid-19, pandemia que assola o mundo, o evento teve que ser cancelado, aliás adiado para 29 de novembro deste ano. Com uma ideia brilhante de não deixar o dia passar em branco e colori-lo mesmo assim, as LIVES, tão na moda nesses dias de confinamento, foi a saída perfeita para lembrar esse dia tão importante. Criaram então a 1ª Parada virtual LGBT. Teria sido maravilhoso se entre os acertos não tivessem ocorrido tantos erros e esquecimentos...


Vamos ser justos e enaltecer o lado positivo primeiramente. A Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo (APOGLBT/SP) e a Dia Estúdio realizam a 1ª Parada Virtual do Orgulho LGBTQIA+ de São Paulo em parceria com o YouTube, arrasaram no número de patrocinadores e apoiadores entre eles Bradesco, TIM, Avon, Netflix, Burger King, Mercado Livre, Natura, GNT, UBER, Amstel, The Body Shop e Jean Paul Gaultier. Ótima a importância histórica de grandes nomes como Frida Kahlo, Cassandra Rios, entre outros e ainda os debates, dando voz a todas as letras da nossa tão mutante sigla, apesar de já começarem aí alguns esquecimentos... Ah! E que delícia as lives musicais com a linda abertura de Ellen Oléria, tendo ainda Daniela Mercury, Gloria Groove, Pablo Vittar, Pepita, Liniker e as participações internacionais de Ricky Martin e Mel C (Spice Girls). Nesse momento esquecimentos também estiveram marcando presença.

Parabéns à Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo (APOGLBT/SP), por não deixarem esse dia sem celebração, mas eu, assim como muitos artistas da noite, aqueles que estiveram desde a primeira parada com poucas pessoas na Paulista, onde me joguei na rua para que a Parada pudesse prosseguir, quando era proibida pela polícia, se sentiram esquecidos, revoltados, desrespeitados e entristecidos com a ausência desses que, há anos, se dedicaram à Parada sem receber um tostão, apenas pela militância tanto apregoada pela Associação. Além de me esquecerem, também não se viu ou ouviu falar de ícones como Paulette Pink, Divina Núbia, Silvetty Montilla, Miss Biá que faleceu esses dias de Covid, Salete Campari, Tchaka (que teve uma participação mínima, sendo que ela que leva a Parada no percurso Paulista/Consolação no gogó), Dimmy Kieer, Esquadrão das Drags, Márcia Pantera, enfim, são tantos talentos que eu usaria linhas para dar seus nomes. Nenhuma de nós foi convidada, fomos trocadas por meia dúzia de Youtubers com menos de 5 anos de carreira. Deixaram para trás artistas que realmente tiveram a ver com a luta, empenho e história da parada. Entendemos que é um evento virtual e que nisso os Youtubers tem seus valores sim, mas até então, eu mesma faço live 3 vezes por semana e num debate teria muito pra falar e argumentar, outras poderiam fazer shows de suas casas ou cantar, como a Léo Áquilla, Mariana Munhoz entre outras pessoas talentosas. O novo é sempre bem-vindo, mas a história jamais pode ser esquecida. Mais decepcionados ainda com os Youtubers que nos conhecem, sabem de nossa existência (ou ao menos deveriam saber) e nenhum se dignou a fazer referência a algum de nós.

O pior de tudo é que, quem fez a história sempre fez por amor e pela causa, por militância e bem sabemos que todos foram pagos e patrocinados para estarem ali. Outra coisa, para que pedir dinheiro sendo que grandes patrocinadores injetaram grandes somas? Queremos saber onde foi parar esse dinheiro, que destino vai ter e o que vai ser feito dele.

A Av.Paulista ficou colorida com as cores do arco-íris, iluminada por luzes que cortaram o céu da cidade.
Foto: Mirani Quadro da Silva, feita da janela de seu apartamento
Sabemos que pelos patrocinadores a escolha foi feita pelos Youtubers e seus números de seguidores, mas cabia à Associação ter alguém para não deixar cair no esquecimento uma luta nossa de 23 anos.

Enfim, sabemos que esse desabafo vai ser abafado, que não receberemos ao menos  um pedido de desculpas, mas novembro está aí, se Deus quiser estaremos livres de pandemia e, por amor à causa, por militância, nós, as "velhas esquecidas" estaremos lá na Av. Paulista mostrando ao mundo mais uma vez, que temos Orgulho em ser LGBTQIA+.

Beijos da Gorda, da eterna, viva e existente Gorda, Kaká di Polly!!!

Para assistir as 8h de transmissão clique abaixo:



https://www.youtube.com/watch?v=vCFsw3M9jEE